Trabalho híbrido e produtividade: o que mostram os estudos

Desde a pandemia, poucas discussões no mundo do trabalho geram tanta opinião quanto o modelo híbrido. Há executivos convencidos de que o trabalho em casa prejudica a produtividade, a inovação e a carreira, e profissionais que não abrem mão de alguns dias em casa. Mas o que dizem os estudos com método sólido? Duas pesquisas publicadas em revistas do grupo Nature ajudam a separar evidência de impressão.
O que mostrou o experimento da Trip.com?
O estudo mais citado sobre o tema foi publicado em 2024 na revista Nature, por Nicholas Bloom, Ruobing Han e James Liang. Os pesquisadores fizeram um experimento controlado e aleatório, o tipo de estudo mais confiável para medir causa e efeito, com 1.612 funcionários com curso superior das áreas de passagens aéreas e de tecnologia da Trip.com, empresa chinesa de viagens.
Entre agosto de 2021 e janeiro de 2022, os participantes foram divididos pela data de aniversário (dia par ou ímpar). Um grupo ganhou a opção de trabalhar em casa às quartas e sextas e ir ao escritório nos outros três dias. O outro continuou indo ao escritório os cinco dias da semana.
Os resultados:
- Os pedidos de demissão caíram um terço no grupo híbrido, de 7,2% para 4,8%. A queda foi significativa entre quem não era gestor, entre as mulheres e entre quem enfrentava deslocamentos longos.
- As avaliações de desempenho não mudaram nos dois anos seguintes.
- Não houve diferença nas promoções nos dois anos seguintes, nem no geral nem em nenhum dos principais subgrupos de funcionários.
- Entre os engenheiros de software, a quantidade de linhas de código escritas não mudou.
- A satisfação com o trabalho melhorou.
Um detalhe interessante: os 395 gestores que participaram mudaram de opinião. Antes do experimento, eles estimavam, em média, que o modelo híbrido reduziria a produtividade em 2,6%. Depois, passaram a estimar um efeito positivo de 1,0%.
Encerrado o estudo, a diretoria da Trip.com decidiu estender o modelo híbrido a todos os funcionários da empresa. A lógica foi financeira: segundo os autores, cada pedido de demissão custava cerca de US$ 20 mil em recrutamento e treinamento, e reduzir a rotatividade em um terço significaria uma economia de milhões de dólares.
Então trabalhar de casa é sempre melhor?
Não necessariamente. O experimento da Trip.com testou um modelo híbrido, com até dois dias em casa por semana, e não o trabalho totalmente remoto. Os efeitos do remoto integral podem ser bem diferentes.
Um estudo publicado na Nature Human Behaviour por pesquisadores da Microsoft, liderados por Longqi Yang, analisou dados de e-mails, agendas, mensagens, chamadas e horas de trabalho de 61.182 funcionários da empresa nos Estados Unidos no primeiro semestre de 2020, quando o trabalho remoto passou a valer para toda a companhia. O resultado: as redes de colaboração ficaram mais estáticas e fechadas em silos, com menos pontes entre áreas diferentes. Também diminuiu a comunicação síncrona, como reuniões e chamadas, e aumentou a assíncrona, como e-mails e mensagens. Segundo os autores, esses efeitos podem dificultar que as pessoas obtenham e compartilhem informações novas dentro da organização.
Juntando as duas pesquisas, a conclusão mais segura é esta: alguns dias em casa não prejudicam o desempenho e ajudam a reter talentos, mas o tempo presencial continua tendo valor, principalmente para a colaboração entre equipes e a troca de ideias. Vale lembrar também os limites: o experimento da Trip.com foi feito numa única empresa de tecnologia, com profissionais de nível superior.
Por que o híbrido funciona melhor com regras claras?
Um dado do próprio estudo da Trip.com chama atenção: os participantes tenderam a usar apenas um dos dois dias permitidos em casa, normalmente a sexta-feira. A explicação dos autores é que, na empresa, grandes reuniões e lançamentos de produtos costumam acontecer no meio da semana.
Isso sugere que o híbrido rende mais quando a equipe combina o que fazer em cada lugar. O escritório funciona melhor para reuniões, alinhamentos e colaboração. A casa, para as tarefas que exigem concentração.
Checklist: como ser produtivo no modelo híbrido
- Dias de escritório com propósito. Concentre reuniões, conversas de alinhamento e trabalho colaborativo nos dias presenciais.
- Dias em casa para foco. Reserve blocos sem reunião para tarefas que pedem concentração: análises, textos, planejamento.
- Combine dias em comum. Defina com a equipe quando todos estarão no escritório, para ninguém se deslocar e passar o dia em videochamadas.
- Cuide das pontes. Como o remoto tende a isolar as equipes, procure de propósito pessoas de outras áreas, pessoalmente ou em conversas rápidas.
- Escolha bem o canal. Assunto complexo ou sensível pede conversa ao vivo; atualização simples cabe numa mensagem.
- Meça por entregas, não por presença. Combine os resultados esperados para a semana e acompanhe o trabalho por eles.
- Planeje a semana olhando o local. No início da semana, distribua as tarefas de acordo com o tipo de dia: presencial ou remoto.
Esse planejamento semanal é uma das bases da Tríade do Tempo, metodologia de Christian Barbosa: quando você decide com antecedência onde e quando fazer cada tarefa importante, sobra menos espaço para urgências e tarefas circunstanciais. Para ver como está o seu equilíbrio hoje, experimente o Teste da Tríade do Tempo, que é gratuito.
Fontes
- Bloom, N.; Han, R.; Liang, J. — “Hybrid working from home improves retention without damaging performance” — Nature, vol. 630, 2024. nature.com
- Yang, L. et al. — “The effects of remote work on collaboration among information workers” — Nature Human Behaviour, vol. 6, 2022 (publicado on-line em 2021). nature.com



