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Semana de 4 dias: o que os testes no Reino Unido e no Brasil revelaram

Trabalhar quatro dias, receber o mesmo salário e manter os resultados. A proposta, conhecida como modelo 100-80-100 (100% do salário, 80% do tempo e 100% da produtividade), deixou de ser só uma ideia e foi testada em empresas reais. Os dois pilotos que mais interessam a quem trabalha no Brasil são o do Reino Unido, em 2022, e o brasileiro, em 2024.
Como foi o piloto do Reino Unido?
Entre junho e dezembro de 2022, 61 empresas e cerca de 2.900 trabalhadores participaram do teste, recrutados pela 4 Day Week Campaign, pela 4 Day Week Global e pelo centro de pesquisa Autonomy. Os resultados foram analisados com pesquisadores do Boston College e da Universidade de Cambridge e publicados em fevereiro de 2023 no relatório “The results are in: the UK’s four-day week pilot”.
As empresas não precisavam seguir um formato único. A exigência era manter 100% do salário e oferecer uma redução significativa da jornada. Antes do início, houve dois meses de preparação, com workshops, mentoria e troca de experiências entre os participantes.
O que mudou para empresas e funcionários?
Os principais números do relatório:
- Continuidade: 56 das 61 empresas (92%) decidiram manter a semana de quatro dias logo após o piloto, e 18 declararam a mudança permanente.
- Receita: ficou praticamente estável durante o teste, com alta média de 1,4% (ponderada pelo tamanho das empresas) entre as 23 que forneceram dados.
- Pedidos de demissão: caíram 57%, de 2 para 0,8 a cada 100 funcionários, na comparação com um período equivalente anterior.
- Faltas por doença e motivos pessoais: recuaram 65%, de 2 para 0,7 dia por funcionário ao mês.
- Bem-estar: 39% dos funcionários ficaram menos estressados e 71% relataram menos sinais de burnout ao fim do teste.
- Equilíbrio: 60% acharam mais fácil conciliar trabalho e responsabilidades de cuidado, e 62%, trabalho e vida social.
Há ressalvas que o próprio relatório reconhece. Os pesquisadores afirmam que não é possível dizer que as quedas em demissões e faltas são estatisticamente significativas, por causa da amostra pequena e do mercado de trabalho da época. Além disso, como as empresas eram muito diferentes entre si, não havia uma métrica comum de produtividade. E as empresas se inscreveram voluntariamente, o que sugere que já estavam dispostas a fazer o modelo funcionar.
Um ano depois, o acompanhamento “Making it stick”, publicado pela Autonomy em fevereiro de 2024, indicou que pelo menos 54 das 61 organizações (89%) seguiam com a semana de quatro dias e pelo menos 31 (51%) a tinham tornado permanente. Entre os funcionários pesquisados, os ganhos em saúde, equilíbrio e redução de burnout se mantiveram.
E o teste no Brasil, deu certo?
O piloto brasileiro começou em janeiro de 2024, organizado pela 4 Day Week Brazil e pela consultoria Reconnect Happiness at Work, com planejamento coordenado junto à 4 Day Week Global e acompanhamento de pesquisadores da FGV EAESP. Começaram 21 empresas, com cerca de 280 a 290 colaboradores.
No relatório parcial, divulgado pela FGV EAESP em maio de 2024, mais de 60% dos participantes relataram melhora na execução de projetos, 58% em criatividade e inovação e mais de 80% disseram ter mais energia para tarefas pessoais e profissionais. As reuniões também ficaram mais objetivas, mas a gestão de prazos e o equilíbrio entre demandas internas e externas seguiam como desafios.
Os resultados finais, divulgados em agosto de 2024 e noticiados pelo InfoMoney, mostraram que 19 empresas concluíram os seis meses: uma saiu por causa das enchentes no Rio Grande do Sul, e outra interrompeu o teste após troca no comando. Entre as que terminaram:
- 46,2% decidiram manter o modelo de forma permanente;
- 38,5% resolveram estender o piloto até o fim do ano;
- 84,6% dos líderes avaliaram que o teste foi benéfico para a empresa;
- 71,5% dos funcionários relataram aumento significativo de produtividade.
Esses números vêm de questionários respondidos por empresas e funcionários, e não de medições independentes de produtividade. Ainda assim, mostram uma adesão alta em um ambiente de trabalho bem diferente do britânico.
O que a sua equipe pode aprender com esses testes?
Mesmo quem não vai adotar a semana de quatro dias pode aproveitar o que as empresas precisaram mudar para caber em menos horas. Use como checklist:
- Revise as reuniões. Corte as que não têm pauta e encurte as demais.
- Troque reuniões por mensagens assíncronas quando a pauta for só informativa.
- Proteja blocos de foco na agenda da equipe, sem interrupções.
- Automatize tarefas repetitivas com as ferramentas que vocês já têm.
- Combine prioridades toda semana, com clareza sobre o que pode esperar.
- Meça resultados, não horas. Defina antes quais indicadores mostram que o trabalho foi bem feito.
- Teste em pequena escala, com prazo definido, antes de mudar a política da empresa.
No fundo, os pilotos funcionaram como um exercício forçado de priorização. Na linguagem da Tríade do Tempo, metodologia criada por Christian Barbosa, menos horas obrigam a equipe a cortar o que é circunstancial, reduzir as urgências criadas por falta de planejamento e concentrar energia no que é importante. Esse exercício vale para qualquer jornada.
Fontes
- Autonomy (com Boston College e University of Cambridge) — “The results are in: the UK’s four-day week pilot” — Autonomy, 2023. autonomy.work
- Autonomy — “Making It Stick: The UK Four-Day Week Pilot One Year On” — Autonomy, 2024. autonomy.work
- FGV EAESP — “Semana de 4 dias: empresas relatam diminuição de estresse e aumento de produtividade” — FGV EAESP, 2024. eaesp.fgv.br
- Anna França — “Semana de 4 dias: empresas brasileiras decidem manter o modelo; veja os resultados” — InfoMoney, 2024. infomoney.com.br



