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Por que o brasileiro produz menos por hora trabalhada (e o que dá para fazer)

O brasileiro tem fama de trabalhar muito, e os números confirmam: passa mais horas por ano no trabalho do que americanos e alemães. Mesmo assim, o que cada hora produz aqui é uma fração do que se produz nesses países. Entender essa diferença ajuda a mudar a pergunta. Em vez de “como trabalhar mais?”, a questão passa a ser “como fazer cada hora render mais?”. E isso vale para o país, para as empresas e para cada profissional.
Quanto o Brasil produz por hora trabalhada?
A produtividade do trabalho por hora é calculada dividindo tudo o que a economia produz (o PIB) pelo total de horas trabalhadas. Pelos dados da Penn World Table, compilados pelo Our World in Data, que descontam a inflação e as diferenças de custo de vida entre os países, cada hora trabalhada no Brasil gerou cerca de US$ 20 em 2023, em dólares internacionais a preços de 2021.
A comparação com outros países mostra o tamanho da distância:
- Estados Unidos: cerca de US$ 83,5 por hora;
- Alemanha: cerca de US$ 82,5;
- Coreia do Sul: cerca de US$ 53,6;
- Argentina: cerca de US$ 33,8;
- Chile: cerca de US$ 32;
- México: cerca de US$ 26,8.
Ou seja, uma hora de trabalho no Brasil gera menos de um quarto do que gera uma hora nos Estados Unidos. E o avanço recente foi lento: em 2015, o valor brasileiro era de cerca de US$ 18,4.
O problema não é falta de horas
A mesma base de dados, também reunida pelo Our World in Data, mostra que o trabalhador brasileiro cumpriu em média cerca de 1.994 horas de trabalho em 2023. Nos Estados Unidos, foram cerca de 1.789 horas. Na Alemanha, cerca de 1.335.
A diferença, portanto, não está na quantidade de horas dedicadas, e sim no que cada hora consegue produzir. Por definição, a produtividade por hora depende das máquinas e da tecnologia disponíveis, da qualificação das pessoas e da forma como o trabalho é organizado. Aumentar a jornada não resolve nenhum desses pontos.
O que dizem os dados mais recentes?
O Observatório da Produtividade Regis Bonelli, do FGV IBRE, acompanha o indicador a cada trimestre, com base nas Contas Nacionais e na PNAD Contínua, do IBGE. No relatório divulgado em dezembro de 2025, os pesquisadores Silvia Matos, Fernando de Holanda Barbosa Filho e Paulo Peruchetti mostram que:
- em 2023, a produtividade por hora efetivamente trabalhada cresceu 2,3%;
- em 2024, esse crescimento desacelerou para apenas 0,1%;
- no terceiro trimestre de 2025, o avanço foi de novo de apenas 0,1% em relação ao mesmo período do ano anterior.
No mesmo terceiro trimestre de 2025, o total de horas efetivamente trabalhadas cresceu 1,8%. Em outras palavras, a economia cresceu porque mais gente trabalhou mais horas, e não porque cada hora passou a render mais.
A gestão faz diferença
Parte da explicação está dentro das empresas. Os economistas Nick Bloom e John Van Reenen avaliaram as práticas de gestão de médias empresas industriais em vários países, em cerca de 6 mil entrevistas feitas entre 2004 e 2008. As notas cobriam três áreas: monitoramento, definição de metas e incentivos. Em texto publicado pelo NBER, eles relatam que os Estados Unidos tinham as melhores notas médias, enquanto Brasil, China, Grécia e Índia ficavam na parte de baixo da lista. E que melhores práticas de gestão estão fortemente associadas a maior produtividade, lucratividade e sobrevivência das empresas.
Um experimento ajudou a mostrar que essa relação é de causa e efeito. Em estudo publicado no Quarterly Journal of Economics, Bloom e colegas ofereceram consultoria gratuita em práticas modernas de gestão a fábricas têxteis na Índia escolhidas por sorteio. Adotar essas práticas elevou a produtividade em 17% no primeiro ano, com melhor qualidade, mais eficiência e menos estoque. Em três anos, as empresas que receberam a consultoria abriram mais unidades de produção. Por que não tinham adotado antes? Segundo os autores, o principal motivo foram barreiras de informação.
O que as empresas podem fazer
- Medir o que importa. Acompanhar com regularidade poucos indicadores de resultado, em vez de controlar presença e horas.
- Definir metas claras e revisá-las com a equipe.
- Cortar desperdícios de tempo, como reuniões sem objetivo, aprovações em excesso e retrabalho por falta de padrão.
- Investir em ferramentas e treinamento, para que cada hora de trabalho conte com bons processos e boa tecnologia.
- Formar líderes que gerenciam, e não que passam o dia apagando incêndios.
O que cada profissional pode fazer
- Troque a régua das horas pela régua do resultado. No fim do dia, pergunte o que foi entregue, e não quanto tempo você ficou ocupado.
- Planeje a semana antes de começar. Defina as duas ou três entregas mais importantes e reserve blocos na agenda para elas.
- Proteja o tempo de foco. Responda e-mails e mensagens em horários definidos, em vez de a todo momento.
- Elimine retrabalho. Crie modelos e checklists para as tarefas que se repetem.
- Invista na própria qualificação, inclusive no domínio das ferramentas digitais que você já usa.
Onde a Tríade do Tempo entra
Na metodologia criada por Christian Barbosa, as atividades se dividem em importantes, urgentes e circunstanciais. Uma rotina dominada por urgências e por tarefas circunstanciais, como reuniões improdutivas e interrupções constantes, é uma das formas mais comuns de transformar muitas horas de trabalho em pouco resultado. Para descobrir como está a sua distribuição de tempo, o Teste da Tríade do Tempo é gratuito.
Fontes
- Feenstra et al., Penn World Table 11.0, com processamento do Our World in Data — “Productivity: output per hour worked” — Our World in Data, 2025. ourworldindata.org
- Feenstra et al., Penn World Table, com processamento do Our World in Data — “Annual working hours per worker” — Our World in Data, 2025. ourworldindata.org
- Silvia Matos, Fernando de Holanda Barbosa Filho e Paulo Peruchetti — “Resultados dos indicadores de produtividade do trabalho no terceiro trimestre de 2025” — Blog do IBRE (FGV IBRE), 2025. blogdoibre.fgv.br
- Nick Bloom e John Van Reenen — “Bossonomics? The Economics of Management and Productivity” — NBER Reporter, 2008. nber.org
- Nicholas Bloom, Benn Eifert, Aprajit Mahajan, David McKenzie e John Roberts — “Does Management Matter? Evidence from India” — The Quarterly Journal of Economics, 2013. doi.org



