IA generativa aumenta a produtividade? O que dizem as pesquisas

Desde que o ChatGPT se popularizou, no fim de 2022, a pergunta que mais se ouve nas empresas é simples: a inteligência artificial generativa realmente faz as pessoas produzirem mais, ou é só barulho? A boa notícia é que já existem estudos sérios, com grupos de comparação e milhares de participantes, para responder com algo além de opinião. A resposta curta: há ganhos, sim, mas eles são desiguais e dependem muito do tipo de tarefa.
O que os estudos já mediram?
Atendimento ao cliente: mais chamados resolvidos por hora
Um dos primeiros estudos de campo foi conduzido por Erik Brynjolfsson, Danielle Li e Lindsey Raymond e divulgado em 2023 como texto para discussão do National Bureau of Economic Research (NBER). Os pesquisadores acompanharam a introdução gradual de um assistente de IA para atendentes de suporte ao cliente. Resultado: o acesso à ferramenta aumentou em 14%, em média, o número de chamados resolvidos por hora. Entre os profissionais novatos e menos qualificados, o ganho chegou a 34%, enquanto os mais experientes quase não mudaram de patamar.
A versão final do trabalho, publicada no Quarterly Journal of Economics em 2025, com dados de 5.172 atendentes, estimou ganho médio de 15% e acrescentou um detalhe importante: os menos experientes melhoraram em velocidade e em qualidade, mas os mais experientes tiveram pequenos ganhos de velocidade e pequenas perdas de qualidade.
Textos profissionais: menos tempo, mais qualidade
Em outro experimento, publicado na revista Science em 2023, Shakked Noy e Whitney Zhang, do MIT, passaram tarefas de escrita típicas do dia a dia profissional a 453 pessoas com ensino superior e liberaram o ChatGPT para metade delas, por sorteio. Quem usou a ferramenta levou, em média, 40% menos tempo e entregou textos com qualidade 18% maior. A desigualdade entre os participantes também diminuiu.
Há ainda um dado curioso: quem teve contato com o ChatGPT durante o experimento ficou duas vezes mais propenso a dizer que usava a ferramenta no trabalho real duas semanas depois.
Consultoria: a “fronteira irregular”
O estudo talvez mais útil para quem trabalha com conhecimento foi feito por um grupo de pesquisadores liderado por Fabrizio Dell’Acqua, em parceria com o Boston Consulting Group, e publicado na revista Organization Science. Participaram 758 profissionais. Em 18 tarefas realistas de consultoria que estavam dentro do que a IA faz bem, quem usou o GPT-4 concluiu 12,2% mais tarefas, terminou 25,1% mais rápido e entregou soluções de qualidade significativamente melhor.
Mas, numa tarefa gerencial complexa escolhida justamente por estar fora dessa capacidade, quem usou IA teve 19% menos chance de chegar à resposta correta do que quem trabalhou sem ela. Os autores chamaram isso de “fronteira tecnológica irregular”: a IA vai muito bem em algumas tarefas e mal em outras que parecem ter a mesma dificuldade. O risco está em não saber de que lado da fronteira você está.
Por que o ganho não é igual para todo mundo?
Os estudos apontam um padrão parecido: a IA ajuda mais quem está começando ou quem tem mais dificuldade com aquele tipo de tarefa. No caso do atendimento, os autores interpretam que a ferramenta espalha para os novatos as boas práticas dos profissionais mais habilidosos, acelerando a curva de aprendizado.
Para quem já domina o trabalho, o ganho tende a ser menor, e o cuidado precisa ser maior. Quando a ferramenta entrega uma resposta convincente em uma tarefa que está fora do que ela faz bem, a tentação de aceitar sem revisar é grande. É aí que a produtividade aparente vira retrabalho, ou erro entregue ao cliente.
Onde a IA tende a economizar mais tempo?
Considerando os tipos de tarefa avaliados nessas pesquisas, a IA generativa costuma render mais em atividades como:
- primeiros rascunhos de e-mails, relatórios e propostas;
- resumos de documentos longos e de anotações;
- respostas a perguntas recorrentes, com base em práticas já conhecidas;
- geração de alternativas para destravar o início de um trabalho.
E exige mais atenção em decisões que dependem de contexto, de dados específicos da empresa, de números que precisam estar certos ou de julgamento sobre pessoas.
Como usar a IA sem perder o controle do seu tempo
Economizar 40% do tempo numa tarefa só vale a pena se esse tempo for parar em algo que importa. Na metodologia Tríade do Tempo, criada por Christian Barbosa, as atividades são divididas em importantes, urgentes e circunstanciais. A IA é ótima para encolher tarefas circunstanciais e parte das urgentes, e o tempo liberado deveria voltar para o que é importante, não para mais demandas de última hora.
- Mapeie suas tarefas repetitivas. Durante uma semana, anote o que você faz várias vezes: respostas padrão, resumos, relatórios. Esses são os primeiros candidatos.
- Teste em tarefas de baixo risco. Comece por rascunhos internos antes de usar IA em entregas para clientes.
- Revise sempre. Trate o que a IA entrega como o trabalho de um assistente rápido: útil, mas que precisa de conferência, principalmente em números, nomes e fatos.
- Saiba onde fica a fronteira. Se a tarefa exige análise complexa ou informação que a ferramenta não tem, use-a para organizar ideias, não para decidir.
- Meça o ganho. Compare quanto tempo a tarefa levava antes e depois. Se a revisão consome tudo o que você economizou, mude a forma de usar.
- Reinvista o tempo. Reserve na agenda um bloco para uma tarefa importante com as horas que a IA liberou.
Quer saber como está hoje a divisão do seu tempo entre o importante, o urgente e o circunstancial? O Teste da Tríade do Tempo é gratuito e ajuda a enxergar onde a IA pode abrir espaço na sua semana.
Fontes
- Erik Brynjolfsson, Danielle Li e Lindsey R. Raymond — “Generative AI at Work” — NBER Working Paper 31161, 2023. nber.org
- Erik Brynjolfsson, Danielle Li e Lindsey Raymond — “Generative AI at Work” — The Quarterly Journal of Economics, v. 140, n. 2, 2025. doi.org
- Shakked Noy e Whitney Zhang — “Experimental evidence on the productivity effects of generative artificial intelligence” — Science, v. 381, n. 6654, 2023. doi.org
- Fabrizio Dell’Acqua et al. — “Navigating the Jagged Technological Frontier: Field Experimental Evidence of the Effects of Artificial Intelligence on Knowledge Worker Productivity and Quality” — Organization Science, v. 37, n. 2, 2026. doi.org



