Metas que funcionam: o que 35 anos de pesquisa revelam

Todo começo de ano, de trimestre ou de projeto, alguém repete a mesma orientação: “dê o seu melhor”. Parece motivador, mas a pesquisa sobre metas indica que essa é uma das instruções menos eficazes que existem. Quem sustenta isso não é um guru de produtividade, e sim dois dos pesquisadores mais citados da psicologia organizacional: Edwin Locke e Gary Latham.
Em 2002, os dois publicaram na revista American Psychologist o artigo “Building a practically useful theory of goal setting and task motivation”, que resume 35 anos de pesquisa empírica sobre o tema. É a base do que se chama teoria do estabelecimento de metas. A seguir, o que ela diz e como aplicar no trabalho.
O que a teoria do estabelecimento de metas descobriu?
A conclusão central é simples: metas específicas e difíceis levam a um desempenho maior do que metas fáceis, vagas ou do que o pedido genérico de “fazer o melhor possível”. Segundo Locke e Latham, quando as pessoas são orientadas apenas a dar o seu melhor, elas não fazem isso. O motivo é que esse tipo de meta não tem uma referência externa, e cada um interpreta do seu jeito o que seria “o melhor”.
Os autores relatam que, quanto mais difícil a meta, maior o esforço e o desempenho. O efeito só se estabiliza ou cai quando a pessoa chega ao limite da própria capacidade ou quando perde o comprometimento com uma meta difícil demais.
A base de evidências é ampla. De acordo com o artigo, metas específicas e difíceis aumentaram o desempenho em mais de 100 tarefas diferentes, com mais de 40 mil participantes, em pelo menos oito países, em laboratório, em simulações e em empresas. Os prazos estudados foram de 1 minuto a 25 anos.
Por que uma meta clara muda o comportamento?
O artigo descreve quatro mecanismos pelos quais as metas afetam o desempenho:
- Direção: a meta concentra atenção e esforço no que é relevante e afasta do que não é.
- Energia: metas altas geram mais esforço do que metas baixas.
- Persistência: metas difíceis prolongam o esforço, e prazos apertados aceleram o ritmo de trabalho.
- Estratégia: a meta leva a pessoa a buscar e usar conhecimentos e métodos para chegar lá.
Um dos exemplos citados vem de motoristas de caminhões de toras. Depois de receberem uma meta específica, eles passaram a carregar os caminhões com 90% do peso legal permitido, contra 60% antes. Alguns chegaram a adaptar os veículos para estimar melhor o peso antes de seguir para a balança.
Quando a meta funciona melhor?
Locke e Latham deixam claro que meta, sozinha, não faz milagre. Alguns fatores ampliam ou reduzem o efeito.
Comprometimento
A relação entre meta e desempenho é mais forte quando a pessoa está comprometida, e isso pesa ainda mais quando a meta é difícil. Dois fatores ajudam: a meta precisa ser importante para a pessoa, e ela precisa acreditar que consegue alcançá-la (a chamada autoeficácia). Assumir a meta publicamente também aumenta o comprometimento, segundo o artigo.
Para gestores, há um achado útil: uma meta definida pelo chefe pode ser tão eficaz quanto uma construída em conjunto, desde que o propósito seja explicado. Metas impostas secamente, sem justificativa, levaram a desempenho significativamente menor.
Feedback
Para a meta funcionar, as pessoas precisam de retorno sobre o progresso. Sem saber como estão indo, fica difícil ou impossível ajustar o esforço ou a estratégia. Meta com feedback funciona melhor do que meta sozinha.
Complexidade da tarefa
Em tarefas complexas, que exigem aprender algo novo, o efeito das metas de resultado é menor. Às vezes, a meta de desempenho deixa a pessoa tão ansiosa que ela testa estratégias de forma desorganizada e não aprende o que funciona. A saída proposta pelos autores é usar uma meta de aprendizagem específica, como descobrir um certo número de estratégias diferentes para dominar a tarefa. Outra ajuda é quebrar a meta distante em metas intermediárias, que geram feedback mais rápido.
Metas difíceis deixam as pessoas menos satisfeitas?
O artigo aponta um paradoxo curioso. A meta funciona também como régua de satisfação: quem mira alto só fica satisfeito com resultados altos. Essas pessoas produzem mais justamente porque não se contentam com pouco. Ao mesmo tempo, os autores lembram que metas desafiadoras aumentam o interesse pela tarefa e ajudam a descobrir aspectos prazerosos da atividade.
Em 2006, Locke e Latham publicaram na Current Directions in Psychological Science uma atualização da teoria. Além de reafirmar a eficácia das metas específicas e difíceis, o texto discute frentes como metas de aprendizagem, metas de grupo, bem-estar e a forma como as pessoas escolhem suas metas.
Quais erros fazem uma meta falhar?
No artigo de 2002, os autores listam por que algumas tentativas de reproduzir o efeito das metas não dão certo. Os erros mais comuns são:
- a meta não corresponde à forma como o desempenho é medido;
- não há feedback;
- não há comprometimento;
- falta conhecimento sobre como executar a tarefa;
- usa-se meta de resultado quando seria necessária uma meta de aprendizagem;
- não se definem metas intermediárias em ambientes de incerteza.
Checklist para suas próximas metas
- Troque “dar o meu melhor” por um número ou critério. “Fechar 12 propostas no trimestre” em vez de “vender mais”.
- Calibre a dificuldade. A meta deve exigir esforço real, mas caber na sua capacidade atual ou em algo que você consiga aprender.
- Escreva por que ela importa. Para você e, se for meta de equipe, para o time. O propósito sustenta o comprometimento.
- Defina como vai medir o progresso. Escolha um indicador e um momento fixo da semana para revisá-lo.
- Quebre em metas intermediárias. Uma meta de 90 dias vira marcos semanais, e o retorno chega mais rápido.
- Se a tarefa é nova, comece com uma meta de aprendizagem. Por exemplo: testar três abordagens de prospecção antes de fixar a meta de vendas.
- Coloque os passos na agenda. Meta sem tempo reservado vira intenção.
Esse último ponto conversa com a Tríade do Tempo, metodologia criada por Christian Barbosa. Os passos rumo a uma meta pertencem à esfera das atividades importantes: trazem resultado no médio e no longo prazo, mas raramente gritam por atenção. Se eles não ganham espaço na semana, as urgências e as tarefas circunstanciais ocupam o lugar. Para descobrir como o seu tempo está distribuído hoje, vale fazer o Teste da Tríade do Tempo, que é gratuito.
Fontes
- Edwin A. Locke e Gary P. Latham — “Building a practically useful theory of goal setting and task motivation: A 35-year odyssey” — American Psychologist, v. 57, n. 9, 2002. doi.org
- Edwin A. Locke e Gary P. Latham — “New directions in goal-setting theory” — Current Directions in Psychological Science, v. 15, n. 5, 2006. doi.org



