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Trânsito e deslocamento: quanto tempo o brasileiro perde e como recuperar parte dele

Para milhões de brasileiros, o dia de trabalho começa muito antes de chegar ao trabalho. Ônibus lotado, trem atrasado, congestionamento na avenida. Esse tempo raramente aparece nas contas de produtividade, mas pesa na rotina, no humor e na energia que sobra para o que importa.
Quanto tempo o brasileiro gasta para chegar ao trabalho?
Em outubro de 2025, o IBGE divulgou os resultados do Censo 2022 sobre deslocamentos para trabalho e estudo. Das 71,2 milhões de pessoas que saíam de casa para trabalhar, a maioria tinha um trajeto relativamente curto: 56,3% levavam de 6 minutos a meia hora para chegar ao trabalho, e 10,3% até 5 minutos.
Mas a outra ponta é grande:
- 20,3% levavam de meia hora a uma hora;
- 10,4% levavam de uma a duas horas;
- 1,8%, cerca de 1,26 milhão de pessoas, levavam mais de duas horas.
Somando as duas últimas faixas, são cerca de 8,7 milhões de trabalhadores que gastam mais de uma hora só no caminho de ida. Se a volta levar o mesmo tempo, são mais de duas horas por dia, ou mais de dez horas numa semana de cinco dias de trabalho.
O Sudeste concentra o problema. Na região, 13,4% de quem se desloca para trabalhar leva de uma a duas horas, acima da média nacional de 10,4%. É também lá que vivem cerca de 698 mil pessoas que gastam mais de duas horas no trajeto, 55,4% de todos os brasileiros nessa situação.
O meio de transporte muda tudo
O Censo também cruzou, de forma inédita, o tempo de deslocamento com o meio de transporte principal. Entre quem usa trem ou metrô, ônibus e BRT, os trajetos de mais de meia hora até duas horas representam, respectivamente, 79,8%, 67,3% e 78,0% dos deslocamentos. Já entre quem vai de bicicleta ou de moto, a maioria (75,1% e 71,9%) chega em 6 a 30 minutos. Segundo o IBGE, no caso do trem, do metrô e do BRT, os tempos mais longos estão ligados às maiores distâncias percorridas por essas redes.
O relatório global de transporte público do Moovit sobre 2024, divulgado em janeiro de 2025, reforça o quadro nas grandes cidades. Com base em milhões de viagens planejadas no aplicativo e em uma pesquisa com 76 mil usuários, o levantamento mostra o tempo médio de deslocamento no transporte público:
- Rio de Janeiro: 58 minutos;
- Brasília: 57 minutos;
- São Paulo e Curitiba: 55 minutos;
- Porto Alegre: 48 minutos, o menor entre as cidades brasileiras analisadas.
Some-se a isso a espera no ponto. No Recife, o tempo médio de espera chega a 20 minutos, o maior do país no levantamento. Não por acaso, horários confiáveis aparecem entre as melhorias mais pedidas pelos usuários (23%).
Por que o trajeto pesa tanto?
Uma revisão de pesquisas publicada na revista Transport Reviews, liderada por Kiron Chatterjee, da Universidade do Oeste da Inglaterra, reuniu o que se sabe sobre deslocamento e bem-estar. Algumas conclusões:
- o humor durante o trajeto é pior do que em outras atividades do dia, e congestionamento, lotação e imprevisibilidade geram estresse;
- quem vai a pé ou de bicicleta costuma estar mais satisfeito com o trajeto do que quem vai de carro e, principalmente, de transporte público;
- a satisfação cai à medida que o trajeto fica mais longo, qualquer que seja o meio de transporte, e aumenta quando se viaja acompanhado;
- a experiência do trajeto “transborda” para a forma como as pessoas se sentem e trabalham depois, no trabalho e em casa.
Ou seja, um trajeto longo e imprevisível não custa só o tempo da viagem. Ele pode chegar ao trabalho junto com você.
Quanto tempo se recupera sem o deslocamento?
Um estudo de Cevat Giray Aksoy, Nicholas Bloom e colegas, com dados de 27 países, calculou quanto tempo as pessoas economizam nos dias em que trabalham de casa. A média do conjunto foi de 72 minutos por dia. No Brasil, foram 82 minutos. Os brasileiros disseram usar 40% desse tempo economizado no trabalho (principal ou secundário), 32% em lazer e 12% em cuidados com outras pessoas, como filhos.
Nem todo trabalho pode ser feito à distância, mas, onde é possível, alguns dias sem deslocamento devolvem um tempo valioso.
Como recuperar parte desse tempo
- Negocie horários flexíveis. Sair antes ou depois do horário de pico pode encurtar o trajeto e torná-lo mais previsível.
- Converse sobre trabalho remoto ou híbrido, quando a função permitir. Concentre os dias presenciais em reuniões e atividades em equipe.
- Escolha a rota pela previsibilidade, não só pela distância. Menos baldeações e o uso de aplicativos com horários em tempo real reduzem a espera e o estresse.
- Use o tempo no transporte público a seu favor. Audiolivros, podcasts, cursos em áudio, leitura ou revisão da agenda do dia. Ao volante, fique só no áudio e nunca mexa no celular.
- Planeje o dia no caminho. Chegar sabendo quais são as três prioridades do dia evita que as primeiras horas sejam gastas apenas reagindo a mensagens.
- Agrupe compromissos. Concentre consultas, compras e reuniões externas no mesmo dia e na mesma região para evitar deslocamentos extras.
- Leve o trajeto em conta nas grandes decisões. Ao trocar de emprego ou de casa, coloque o tempo de deslocamento na balança, ao lado do salário e do aluguel.
Para as empresas, a lista é parecida: flexibilizar horários de entrada e saída, adotar modelos híbridos onde fizer sentido e evitar marcar reuniões logo no início da manhã, o que obriga todos a enfrentar o pico.
O deslocamento e a Tríade do Tempo
Na Tríade do Tempo, metodologia criada por Christian Barbosa, as atividades importantes são as que trazem resultado no médio e no longo prazo, como estudar, planejar, cuidar da saúde e estar com a família. São justamente as primeiras a perder espaço quando o dia encolhe por causa do trânsito. Reduzir o deslocamento, e usar melhor o que sobrar dele, é uma forma de devolver tempo ao que é importante. O Teste da Tríade do Tempo, gratuito, ajuda a enxergar para onde o seu tempo está indo.
Fontes
- IBGE — “Censo Demográfico 2022: Deslocamentos para trabalho e para estudo: resultados preliminares da amostra” — IBGE, 2025. biblioteca.ibge.gov.br
- Moovit — “Moovit apresenta edição 2024 do seu relatório global” — Moovit, 2025. moovit.com
- Kiron Chatterjee, Samuel Chng, Ben Clark, Adrian Davis, Jonas De Vos, Dick Ettema, Susan Handy, Adam Martin e Louise Reardon — “Commuting and wellbeing: a critical overview of the literature with implications for policy and future research” — Transport Reviews, 2020. doi.org
- Cevat Giray Aksoy, Jose Maria Barrero, Nicholas Bloom, Steven J. Davis, Mathias Dolls e Pablo Zarate — “Time Savings When Working from Home” — NBER Working Paper 30866, 2023. nber.org



